Em maio de 2024, a engenharia britânica Arup confirmou um incidente que virou aviso mundial: um funcionário do financeiro, em Hong Kong, havia transferido cerca de US$ 25 milhões em 15 operações diferentes. O diretor financeiro havia pedido. Havia visto o rosto dele em videochamada e ouvido a voz. Só depois descobriram: era um deepfake.
O que torna este caso mais relevante do que outros não é a sofisticação da técnica — é o que ele expõe. Por séculos, empresas construíram controles sobre uma premissa simples: você reconhece o rosto e a voz de quem manda, então o pedido é legítimo. Mas reconhecer uma pessoa não é mais prova de quem ela é. E no Brasil, onde processos de aprovação executiva já carregam desafios de fuso horário e confiança, a falsa identidade encontra solo ainda mais fértil.
A Arup não foi um caso isolado. Segundo pesquisa da Gartner divulgada em 2025, 62% das organizações sofreram incidente envolvendo deepfake de vídeo ou áudio nos últimos 12 meses. Boa parte desses ataques se concentrava em chamadas de áudio: outro levantamento da Gartner mostrou que 41% das organizações atingidas enfrentaram um deepfake combinado com engenharia social em uma chamada de áudio — alguém ligava pedindo uma transferência urgente, a voz era sintética e credível, e o pedido parecia vir de cima para baixo.
O problema: a identidade visual virou inútil para autorizar ações sensíveis
A razão pela qual o funcionário da Arup caiu no golpe não era ingenuidade. Era design: ele estava autorizado a fazer transferências. A videoconferência criou a ilusão de autorização de quem podia autorizar. Nenhum desses dois fatos era falso — era apenas o meio de transmissão que era falso.
Deepfakes de áudio de alta qualidade precisam de apenas 3 segundos de amostra vocal original para alcançar 85% de correspondência, segundo análise do Security.org. Vídeo é um pouco mais lento, mas apenas marginalmente. A diferença técnica entre um deepfake que engana um humano e outro que não engana é medida em semanas, não em meses. E está ficando mais rápida.
O resultado é que as defesas tradicionais — reconhecer a voz, ver o rosto, confirmar via email — viraram insuficientes porque já não provam nada. Alguém passa a ter autoridade para transferir dinheiro porque o sistema de identidade da empresa disse que sim. Se esse sistema ainda se baseia em "você reconheceu a pessoa", então qualquer pessoa que consiga falsificar rosto e voz consegue herdar aquela autoridade. E no caso de uma videoconferência ao vivo, a urgência adiciona pressão: questionar é perder tempo, e perder tempo é não cumprir uma ordem que aparentemente vem de cima.
Empresas que tentam resolver o problema com "proíbam teleconferências para pedidos de transferência" criam outro: fazem a aprovação ser mais lenta, mais burocrática, e — paradoxalmente — mais próxima de um email, que também é fácil de falsificar.
Por que políticas tradicionais falham

Segundo o Deloitte Center for Financial Services, a fraude habilitada por inteligência artificial generativa no setor bancário dos Estados Unidos pode chegar a US$ 40 bilhões anuais até 2027, ante US$ 12,3 bilhões em 2023. A maioria das companhias respondeu da única forma que sabiam: mais políticas. Mais aprovações em cadeia. Mais emails confirmando. Mais checklist.
O problema é que adicionar uma etapa de aprovação em um processo já lento não tira o risco — apenas o distribui. Se a segunda aprovação também vier de alguém que reconheceu uma voz ou viu um rosto, então você tem dois deepfakes em série, não um.
Proibir videoconferências também não resolve. Porque a palavra "proibir" pressupõe que há uma alternativa real e viável. Se a alternativa oficial for "mandar um email ou entrar em contato por telefone", a pessoa que está sob pressão — "transferir US$ 25 milhões hoje ou perder um contrato" — vai ver pouca diferença. Um email falsificado é tão fácil quanto uma chamada falsificada.
O que esses controles têm em comum é que todos eles tentam provar identidade do meio para cima: olhando para o rosto, a voz, o email. A falha está em começar do lugar errado.
O que precisa existir na prática
Um ambiente de pagamentos e aprovações seguro não se baseia em reconhecer quem pediu. Se baseia em separar "a pessoa que fez o pedido" de "a pessoa autorizada a fazer o que foi pedido".
Identidade corporativa, não biometria de conforto. Quem transfere dinheiro precisa estar autenticado via Active Directory, crachá físico ou token corporativo — não via voz ou rosto capturado na câmera. A identidade da empresa é o porteiro, não a câmera no guarda-chuva. A pessoa entra no sistema de aprovação como "Ana Ferreira do financeiro", e o sistema sabe que Ana foi desligada em julho — então nem chega até a conta de transferências, não importa que sua voz seja perfeita.
Segregação de funções: quem pede, quem autoriza. O funcionário que submete uma transferência é alguém. Quem aprova é outra pessoa, em uma tela diferente, com acesso controlado. E se a transferência é para um banco novo, para um valor acima do limiar ou para um beneficiário de fora da lista aprovada, uma terceira pessoa precisa intervir — digamos, a gestora de conformidade.
Aprovação sem videochamada. Toda aprovação sensível acontece dentro de um sistema fechado, por um canal que não é áudio e não é vídeo. Um formulário. Uma ordem de serviço. Um ticket que fica registrado. Porque se alguém disser "vi a autorização na tela do Zoom", ninguém saberá se era Zoom real ou deepfake.
Trilha auditável de quem pediu, quem viu e quem aprovou. Um registro que mostre: às 14h47, a pessoa A (maria@empresa.com, setor financeiro) submeteu a transferência de US$ 25M para a conta X. Às 15h12, a pessoa B (diretor@empresa.com) abriu o ticket de aprovação. Às 15h49, aprovou. Se no dia seguinte for descoberto que a pessoa B foi vítima de um deepfake e nunca aprovou nada, então tem um registro — e isso torna a transferência rastreável, reversível e juridicamente sustentável.
É assim que a Skyller foi desenhada: identidade corporativa como porta de entrada, acesso conforme o papel de cada pessoa, aprovação humana antes de uma ação sensível e trilha de auditoria de cada movimento.
Do golpe à blindagem

O caso Arup não prova que a empresa fez algo errado. Prova que ninguém fez algo certo — porque ninguém havia desenhado um caminho seguro para isso. O funcionário estava autorizado. O pedido veio de um rosto e uma voz conhecidos. Do ponto de vista dele, tudo estava correto.
O ganho de um ambiente governado nesse cenário é duplo. Curto prazo: a transferência não teria deixado o sistema. Longo prazo: mesmo que tivesse, a trilha de auditoria deixaria claro que a aprovação veio de uma pessoa que estava fora da empresa naquele dia, e a operação teria sido revertida em horas, não em semanas.
Um segundo ganho, menos óbvio: quando aprovações sensíveis ficam registradas dentro de um sistema, com segregação de funções e sem dependência de reconhecimento facial, a empresa consegue automatizar partes do fluxo. Se a transferência é para uma conta bancária que já está na lista de beneficiários aprovados, e o valor é menor que o limite, e quem pede é um usuário de dois anos com histórico limpo — então um agente de IA pode autorizar automaticamente, sem passar por um humano. Porque a decisão não é "reconheço esse rosto?" e sim "essa transação encaixa em uma política que eu conheço?".
Um checklist para a próxima reunião
Antes de adicionar mais uma camada de aprovação, vale passar por estes pontos com as lideranças de financeiro e TI:
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Cada aprovação de transferência fica registrada em um lugar que um auditor consegue consultar depois? Se a resposta é "fica, mas só em email", você não tem trilha. Se fica em um sistema centralizado com timestamp e nome de quem aprovou, então está bom — mas precisava já estar assim.
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Quando uma pessoa é desligada, quanto tempo leva até ela perder acesso ao sistema de aprovações? Se a resposta é "alguns dias" ou "quando alguém lembrar", você tem uma janela de risco. A janela ideal é horas — e só é possível se a identidade vem do Active Directory, não de uma conta local criada meses atrás.
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Um diretor pode aprovar sozinho uma transferência acima de um certo valor, ou precisa de uma segunda aprovação? Duas etapas de aprovação não garantem nada se as duas pessoas estão no mesmo email falsificado. Mas reduzem o risco se a segunda etapa é um formulário dentro de um sistema, não uma conversa de Zoom.
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Há uma política que proíbe aprovar pedidos de transferência via videochamada, e há uma política que diz exatamente como eles têm que ser aprovados? Se não há, a pessoa sob pressão vai pedir por Zoom e você só vai descobrir depois.






